segunda-feira, 3 de abril de 2017

Abro os olhos. O quarto está totalmente envolto na escuridão, e não há um único feixe de claridade a passar por entre as persianas. Conduzo a minha visão para o despertador em cima da mesa de cabeceira. 3:50 da manhã. Fecho os olhos novamente. Dirijo a minha mente para os cenários mais utopicamente exequíveis, na esperança de adormecer rapidamente. No entanto, apenas um pensamento paira na minha mente.

Sinto o clima gélido das noites de fevereiro na minha pele cálida. Olho para a janela à minha frente e permanece de noite. Está um silêncio sepulcral e desconfio que a esta hora, não é suposto estar aqui ninguém. O meu batimento cardíaco está forte, desenfreado. De imediato conjecturei que todo este cenário fosse um possível pesadelo, ou que este batimento cardíaco não passasse apenas de uma impressão ilusória deste sonho. Porque apesar de tudo, estou em paz, extremamente tranquila, não pode ser um pesadelo. Então, o que é?

De repente, oiço uma respiração que não a minha. Primeiro distante, mas gradualmente torna-se cada vez mais próxima, mais intensa. Com o aproximar daquela doce respiração, juntou-se um batimento cardíaco, semelhante ao meu, acelerado, pulsante, contrariamente à respiração, serena e pouco audível. Sinto um arrepio percorrer cada recanto do meu corpo. Uma sensação de bem-estar penetra-me a pele e invade-me, desde o âmago da minha alma, ao ímpeto do meu ser. Tento perseguir a melodia que ecoava na minha cabeça e que me deixava tão estranhamente confortável. Estava claramente atrás de mim. Mas quem seria? E porque é que estaria ali também? O que seria tudo isto afinal? Precisava apenas de 2 segundos de coragem insana e o mistério estaria solucionado. 

Fecho os olhos e viro-me. De imediato sinto algo a agarrar-me com força, a prender-me, a puxar-me contra si. Quem seria? Porque é que me estaria a fazer isto? Queria abrir os olhos, mas havia algo que não mo permitia fazê-lo. Porque é que eu sentia que aquele momento não era algo forçado, mas sim algo que eu no fundo também queria? Mantenho os olhos fechados e concentro-me, apurando cada um dos meus sentidos. Oiço a respiração que ecoava naquele espaço. Sinto o calor que emanava daquele corpo incógnito, mas que, no entanto, me parecia tão familiar. Sinto o doce perfume que pairava no ar. Agora tudo fazia sentido.

Abro os olhos, desta vez com segurança e extrema facilidade. Lá estavas tu, com o teu brilho característico no olhar que eu detetava sempre que olhavas para mim, desde o dia em que o destino decidiu que os nossos caminhos se deviam cruzar. Não conseguiste não esboçar um sorriso e abraçaste-me com força. Senti cada centímetro teu colado a mim, e senti-me em casa. Soltaste-me um pouco e olhaste-me nos olhos. Fixaste-os de tal forma que te senti, mais uma vez, a tentar decifrar-me a alma, a tentar desvendar todos os meus mistérios. Adorava saber o que te cruzava a mente de cada vez que olhavas para mim assim. Desvendo-te, também eu, a tua alma com o olhar, e vi a minha imagem, algo distorcida, mas nítida o suficiente para eu entender que parte de mim já morava em ti. Beijei-te lentamente. Também tu já possuías um lugar em mim, mesmo sem eu o saber. Beijei-te novamente, desta vez de forma fogaz, e logo senti cada recanto teu, do corpo à alma. Desnudaste-me um pouco a alma com a facilidade como desde cedo tiveste, nessa tua batalha incessante de saber o que há por detrás de todas as minhas máscaras. Senti as tuas mãos gélidas no meu semblante. Olhaste-me nos olhos. "´és tão diferente". Os vocábulos que a tua voz rouca e serena proferiu, deixaram-me petrificada.

Os teus olhos tentavam desenfreadamente entender que impacto tais palavras teriam tido em mim. Recosto a minha cabeça no teu peito, envolves-me nos teus braços e não consigo evitar esboçar um sorriso. Inspiro profundamente e sinto o teu perfume em tudo o que me rodeia, tornando esse doce aroma em oxigénio para os meus pulmões. Escuto a tua respiração no meu ouvido e sinto o teu batimento cardíaco no meu rosto. Sou abalada por uma panóplia de sensações e emoções, sinto-me levitar. Estou tão bem, finalmente. E saber que também estás bem, eleva-me ainda mais. Ambos sabemos que não é pressuposto sentirmo-nos assim, foi o combinado, mas não consigo fugir muito mais de algo tão surpreendentemente forte. Por momentos questiono se de facto quero manter esse combinado. Sinto o meu corpo a congelar. Esqueço o assunto.  Beijo-te em tom de despedida. Quero tanto ficar, mas tenho de ir. Viro costas e agarras-me no braço. Puxas-me para ti e roubas-me um último beijo. Ambos seguimos cada um o seu caminho. Não querendo ser cliché, tento não olhar para trás, mas acabo por fazê-lo. Foste cliché. Fixavas-me, parado e voltado para mim. Sorrimos e virámos costas. Já sem os teus olhos cravados em mim, dei por mim a sorrir discretamente. Sinto-me idiota porque não haverá mais nada para além disto, nem pode haver. Foi o acordado entre nós. Mas e se...? Não, não pode ser. Cerro os olhos, inspiro profundamente, e sinto o teu perfume em mim. Em tudo o que me circunda. Quase que sinto de novo o teu toque, tão preciso, tão seguro, em cada milímetro meu. Oiço a tua voz, ora suave, ora intensa. Sinto o teu abraço, o calor que emana da tua pele. Sinto o teu beijo. Sinto-me novamente a levitar.

Nunca eu pensei que aquele fosse o nosso beijo de despedida.

Subitamente, o meu batimento cardíaco alterou-se. Permanece veloz, no entanto, a sensação de levitação deu lugar a um mau presságio que acabara de se acomodar confortavelmente em mim. Sinto um nó na garganta e tenho o estômago às voltas. Encontramo-nos de novo frente a frente. A distância emocional entre nós permanece intacta, consigo contemplá-lo perfeitamente no teus olhos, que tentam, como sempre, desnudar-me a alma. No entanto, a distância física aumentara drasticamente. Já não sentia o calor da tua pele em mim. A tua respiração e o teu batimento cardíaco estavam agora mais distantes e quase inaudíveis. O teu toque e o teu beijo estavam à distância de 2 segundos de audácia insana da minha parte. Eu sabia que se agisse, tu agirias comigo. Mas não tive coragem, e embora a minha alma estivesse a ser desnudada pelo teu olhar a cada minuto que passava, ambos permanecíamos imóveis, petrificados. Ainda que eu te sentisse como uma doce lavareda a incendiar cada poro da minha pele, consumando assim uma paixão ardente como a que nos unia, na realidade, tentávamos descabidamente manifestar um clima gélido irreal nas palavras que ambos proferíamos. O combinado. Nenhum de nós soube cumprir com isso.

"Eu gosto de ti, mas não posso correr o risco de magoar alguém como tu. Nós temos tudo para resultar, e isto custa-me imenso, mas eu não consigo. Ambos sabíamos que não estava pronto para isto.". Das palavras mais dolorosas que já ouvi. Um sentimento altamente agridoce invade-me. Sei que tens sentimentos por mim. Sei que finalmente alguém me valorizou e me teve em consideração. Mas, em contraste, sei tudo aquilo que estou a perder. Tudo o que aquelas palavras me extorquiram e levaram para longe como se fossem suas, como se não houvesse nenhuma chance de virem a ser minhas. Pior que isso foi ver nos teus olhos que o teu desejo de arriscar era tal como o meu, inseguro, latente, mas real, genuíno, pulsante, irracional, visceral. No entanto, estavas convicto de que o melhor seria disfarçar esse desejo com concepções unicamente racionais, juntamente com alusões ao passado de ambos. Senti os olhos a inundarem-se de lágrimas, tornando a minha visão turva. A sensação de impotência. A consciência de que afinal havia um certo sentimento que até aí insistia em ocultar de mim mesma, por muito diminuto que ainda seja. Fecho os olhos. Sinto as lágrimas quentes e salgadas a fluírem pelo meu semblante.

Abro os olhos. A minha almofada vazia perdeu o teu perfume, e nele já só mora a fragrância da tua ausência, atolada de memórias e antigos sorrisos e histórias para contar. Choro por uma situação que nem eu mesma compreendo corretamente. Sinto tudo tão intensamente, e, no entanto, não possuo sentimentos por ti que o justifiquem. Pensar que te perdi causa-me uma dor pungente. Perdi-te, mas será que te cheguei a ter? Ambos sabemos que fomos díspares de todos os anteriores, que fomos únicos até então. As nossas almas conectaram-se como nunca nenhuma delas se havia conectado antes. Foi pura poesia escrita nas curvas dos nossos corpos e nas linhas dos nossos destinos. Mas será uma conexão capaz de despertar em mim tantas emoções, tão intensas?
Talvez seja por saber o que estamos a deixar para trás. O nosso passado é determinante, digo-o tão ciente e receosa como tu. No entanto, sinto que desta vez poderia ser diferente. Não me importa quem foste, o que já fizeste e com quem estiveste, apenas me importa quem és e quem estás disposto a ser. Quero unicamente que sejas alguém que vale a pena, alguém que faça a diferença. E acho que foi precisamente isso que me amedrontou. Teres-te revelado como tal. E por me teres mostrado, dia após dia, que eras diferente. Só espero que não sejas mais uma pessoa com quem o meu caminho se intersecta, mas que no final, não deixa saudade. E é por eu saber justamente que não o és, que estou no limbo.

A tua mente pode conduzir-te para todos os panoramas exequíveis em que eu não me encontre. Podes tentar esquecer-te da minha existência, da alma que te reconheceu, sendo reconhecida. Podes tentar procurar o meu sorriso, o meu olhar, o meu toque, o meu beijo, o meu abraço, a minha voz, em inumeráveis vultos incógnitos pelas ruas da cidade. Podes até encontrar certos rostos que encaixem no teu, certos corpos que coincidam com o teu. No entanto, apenas existe um encaixe perfeito, e até prova discordante, eu acredito que sou eu. Admito que, no ímpeto da minha alma, ainda detenho um resquício de esperança de que voltes atrás. De que te apercebas que estás a perder uma mulher que não encontrarás igual. Eu não sei o que é isto, mas algo em mim diz-me que ainda não acabou. Ganha consciência e luta contra os temores, agarra-te a isto, mesmo que não saibamos o que é, e dá um disparo no escuro. Faz o que desejares, mas não me deixes partir. Não assim. Não me deixes partir sem saber o que somos. Ou o que fomos, o que podemos vir a ser. Ou aquilo que sempre fomos e nunca nos apercebemos. Conexões como a nossa não se encontram facilmente. Não a ignores. "procura-me como se nunca me tivesses tido. Agarra-me como se eu fosse desaparecer. Faz de conta que o para sempre só existe comigo".

Que seja um até já.

- texto ficcional-  
Ao longo da nossa vida, inúmeros sóis irão cruzar-se no nosso percurso. Uns irão estar connosco só de passagem, outros ficarão por um tempo indeterminado, tempo esse que variará de sol para sol. Uns estarão à distância de um simples olhar, outros à distância de um toque. Inúmeros sóis irão despontar os maiores sorrisos, irão roubar a nossa respiração, pedir o nosso corpo emprestado, bem como o nosso coração. E nós vamos gostar desse sentimento de posse porque no fundo, é aquilo que mais queremos no momento. Mas mesmo assim, por muitos sóis que apareçam, haverá sempre algo que eles nunca terão. A capacidade de desnudar uma alma com a facilidade com que desnudam um corpo. De demonstrarem amor com tanta facilidade como quando lhes foge pelos lábios um "amo-te" banalizado. Nunca vão ter essa capacidade. Porque isso pertence à lua. Não às luas, mas sim à lua. Porque para mim, cada pessoa tem os seus sóis e a sua lua. a única pessoa capaz de ver a sua alma, tanto as suas facetas mais obscuras, como as mais puras e mesmo assim, continuar à amá-la, exatamente da mesma forma, senão de uma forma ainda mais forte. O segredo está em não nos deixarmos vislumbrar por palavras bonitas e começarmos a dar valor às pequenas coisas da vida, aos gestos mais simples mas mais significativos. Em entendermos que facilidades são uma parvoíce e que se queremos, temos de lutar para ter, porque sem esforço nada se consegue. Se alguma vez encontrares a tua lua, nunca a deixes escapar, porque desnudar a alma é algo que todos querem, mas que nem todos conseguem.
     A mudança instalou-se como um tiro no escuro. O mundo ficou mais cinzento e mais frio. O amor e a confiança passaram a ser apenas meros conceitos e as pessoas não passavam de corpos deambulantes de rostos desconhecidos. Embora conseguissem levar uma vida supostamente normal e feliz, faltava-lhes algo. Algo que outrora os fazia esboçar os sorrisos mais sinceros e sentir o inexplicável, agora, pelo contrário, causava-lhes um vazio descomunal, que nem eles próprios sabiam explicar.
  O quarto, tal como o mundo, estava frio. Um ambiente pesado rondava-o, embora ainda permanecesse um aroma adocicado que mais se assemelhava ao perfume de Vénus. Um aroma doce, repleto de memórias, sentimentos fervilhantes e saudade. De duas almas que se juntaram muito antes dos corpos e que só estando juntas se completavam.
   O que antes eram gotas quentes de suor e da paixão que os unia, agora não passavam de gotas geladas como o orvalho ao amanhecer. Gotas em que só restavam memórias, mágoa e saudade. O chão, aquecido pelo calor que os seus corpos emanavam, estava agora gélido, como um bloco de gelo. Os lençóis daquela cama abandonada, estavam agora estagnados e solitários. Mortos. As paredes que outrora guardavam todas as memórias, dos gritos aos amo-te sussurrados, dos risos aos choros, das promessas aos pactos, estavam agora vazias. Ou aparentavam. A mágoa e a nostalgia, aliadas à saudade e ao orgulho, camuflaram o que restava daquele amor inacabado. Excepto aquele perfume tão alucinante como o que os unia. O símbolo de tudo o que se passara dentro e fora daquelas quatro paredes. Daquele terceiro espaço, em que eles viviam, sem sequer saberem da sua existência.
ff  O mundo estava frio e só, bem como o quarto. O mundo, o quarto e eles, que sem saberem, sentiam tanta falta um do outro como um surdo sente a falta de ouvir o bater das ondas nas rochas de uma praia deserta. Sentiam tanta falta um do outro que nem sequer conseguiam explicá-lo. Os sentimentos e pensamentos transcendiam-nos e talvez por isso, o afastamento foi algo inevitável. Sentiam falta de quando o tempo parava quando estavam juntos. Sentiam falta do prazer sem nunca terem sucumbido ao desejo. Sentiam falta dos beijos que não deram, dos amo-te que não disseram e das verdades que nunca conseguiram expressar. Como alguém que sente falta de ver o azul do céu, nascendo invisual. Sentiam saudades do que nunca tiveram, do que nunca foram.
    Eles podiam ter sido tudo, mas não arriscaram o suficiente, mataram-se por jogarem pelo seguro. Tinham tanto para dizer um ao outro e perderam as palavras num misto de encontro e abandono. Eles só queriam que tudo voltasse. Sonhos constantes assombravam-nos noite após noite. Bebiam os sorrisos e as magias um do outro. Beijavam os seus sonhos, acariciavam os seus desejos e estavam felizes. Plenamente felizes. Sonhavam com o que podiam ter sido e com o que quase eram, sem saberem. Até ao momento em que acordavam com a dura realidade de que tudo aquilo não passava de meros sonhos, e que a realidade era  totalmente oposta. E ali permaneciam, sozinhos e afundados num vazio descomunal, ainda mais profundo e gélido que o quarto e o mundo.
     Eles só queriam ser donos do seu destino. Queriam voltar a ser uma alma entre dois corpos, um destino entre dois sonhos. Um acreditar entre duas vontades. Uma força entre duas conquistas. Um conforto entre duas companhias. Um defeito para uma qualidade. Um total para duas metades. Um existir, entre dois corpos ao vento. Um tudo no meio do nada. Queriam ser tudo isso de novo, sem fazerem sequer ideia que já o tinham sido.
   E eles ainda eram tudo isso, sem sequer o saberem. Eram o lume de uma paixão inacabada. Ocultada. Nunca aproveitada ou arriscada. Eram dois mundos à eterna descoberta das maravilhas da vida. O mundo, o quarto e eles estavam vazios, frios e sós. Mas aquele perfume adocicado permanecia. A chama de uma vela no meio de quatro paredes escuras. Havia uma réstia daquele amor tão poderoso e fatal, cuja existência eles sempre desconheceram. Só lhes restava a eles voltar a fazer tudo de novo. Mas será que conseguiam? Conseguiam retomar algo que nunca começaram? Ressuscitar algo que nunca chegou a nascer, ou que pelo menos, nunca teve uma vida reconhecida?
    Lembravam-se perfeitamente de cada momento. Cada segundo. Cada olhar trocado. Cada palavra proferida e cada abraço sentido. Lembravam-se de cada milímetro do corpo um do outro, até mesmo daquilo que nunca viram. Lembravam-se de todas as declarações de amor que nunca fizeram e das discussões que nunca tiveram. Aperceberam-se que havia algo para além da amizade que tinham. Um diamante que precisava de ser lapidado. Um mero sorriso conseguia congelar o tempo, a voz de um era a música preferida do outro e quando os seus olhares se cruzavam, nada mais importava. Quando os átomos que os constituíam se afastaram como um pedaço de gelo quebrado, ambos perderam algo que não sabiam sequer que existia. Perderam a chama que os aquecia. Perderam a luz das estrelas, estrelas singelas e lindíssimas, que ao olharem o céu jamais tinham visto (nem tornaram a ver). Perderam o porto de abrigo. Aquilo que achavam que não era nada, mas que no fim se revelou tudo. Quem lhes ativava os pulmões, lhes fugia pela boca. Quem fazia os seus poros gritar, quando os corpos se fundiam num. Quem lhes bombeava sangue ao coração e os fazia sentir o impensável, embora fosse encarado com uma maldita normalidade. Quem fazia os defeitos parecerem virtudes e noites parecerem dias. Entenderam que as coisas simples que os uniam eram as melhores coisas do mundo. Lembravam-se da profundidade dos seus olhos cor de mel, presos nas suas peles.
    Até já as pedras da calçada e as ondas do mar choravam por eles, sentiam a sua falta. Das palavras que eles sussurravam um ao outro sem sequer dizerem nada. Dos beijos que trocavam com o olhar e dos dias e noites que passavam juntos em mente. O que eles mais queriam era que tudo voltasse. Queriam fazer o outro perceber que o mundo era deles e que iriam para onde o outro fosse, independentemente de tudo. Queriam estar juntos, no mar gélido de defeitos e palavras saídas do coração. Queriam trocar mais beijos com o olhar e depois com os lábios. Queriam passar mais dias e noites juntos com a mente, e mais tarde com o corpo, naquela rotina que eles adoravam, mesmo não se apercebendo da sua existência. Queriam comprovar que ainda se lembravam na perfeição de cada contorno um do outro. Que a voz ainda era a mesma, bem como o sorriso inocente e o olhar intenso. Queriam que se lhes lessem os seus desejos. Os sonhos que sonhavam, após as madrugadas de insónias. Queriam tudo isto, mas não o sabiam ao certo. Faltava-lhes algo, mas ainda não sabiam decifrar o que era. Por isso, decidiram permanecer em silêncios que lhes arrepiavam o coração. Permaneceram despidos de tudo o que os mantinha quentes. Ficaram sem teto, sem chão. Até ao dia em que finalmente abriram os olhos e se aperceberam da realidade que os unia. E que forte realidade. 
Mas será que não era demasiado tarde?

- texto ficcional-